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sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A dois


Era o quarto mais capenga de hotel que eu já vira. Afinal, naquela cidade, “motéis” possuíam nomes de hotéis e motéis, denotativamente, nem queiram saber... Nem banheiro encontramos ali, minhas mãos sujas por seus últimos vestígios...
Primeiro, foi aquela sensação estranha de frio na barriga enquanto subíamos os degraus no escuro. O caminho? Ah, o caminho... Foi bem dito pela recepcionista indiscreta ao nos receber no portão: “Pretende ficar mais de uma hora, doutor?” - Doutor? - Porque as pessoas têm a mania de chamar todo mundo de doutor? Não é apenas quem tem doutorado?! E ele? Não tinha, não.
A cama no centro, com lençóis brancos manchados e duas toalhas em sacos plásticos grampeados. Na cabeceira da cama um quadro em pintura abstrata e ao lado um jarro de flores campestres o que dava ao ambiente um ar de outono, em nossos pés, já deitados, uma TV da qual não fizemos uso. Ele parecia um pouco nervoso, mexia sem parar um rádio velho sintonizando em alguma estação que eu não conhecia, puxei-o voluntariamente em um abraço e o passado teimou em persistir na minha mente. Faminto pela fome da qual jamais provou da qual queira Deus, nunca prove!


Eu sempre tive fetiche pela noite daquela cidade. Mas, naquela noite, tudo corria de forma tão natural que a facilidade com que o corpo dela se permitia ao toque, de alguma forma, deixou-me nervoso. Mesmo depois de tudo que já tínhamos vivido juntos, eu não conhecia aquela mulher (até ontem, não conseguia vê-la como mulher; era a minha pequena). Ela me olhou como quem diz: “Me pega, vai! Mas me pega com vontade!”. Puxou-me pelo braço de tal forma que minhas mãos naturalmente caíram sobre o seu seio. Minhas mãos pareciam saber bem mais o que fazer do que eu; tomaram a iniciativa por mim. Sempre gostei de tocar o rosto dela antes de beijá-la. E foi pela boca que eu comecei.


Suas mãos me tocaram delicadamente, da boca, pescoço, seios e detiveram-se por lá, eu já embriagada, por sua presença fui sucumbindo ao desejo. Eu não conhecia aquele “doutor” mesmo depois de ter estado uma única vez entre sua família e ele, algumas noites na minha, de ter beijado e sentido os seus cuidados, de ter dançado aquele tango improvisado na varanda, eu não conhecia aquele, aquele suado e despido jaleco eu não conhecia, até ali.


Tive vontade de passar dias sentindo o gosto do cheiro de seu sexo. O sentimento era o da mais completa posse: um corpo movendo-se à revelia da minha regência, minhas mãos umedecidas dela mesma a procurar seios em todos os lugares, tudo isso enquanto minha língua procurava arqueologicamente encontrar aquele gemido baixinho que contrastava com a força de suas unhas fincadas na minha nuca. No auge do transe, senti um solavanco que me tirara o mel da boca. Nessa hora, ouvi os carros, sirenes, música longe, os sons que alimentavam o meu fetiche por aquelas noites. Senti que eu tinha que entrar. E subi como quem escala com medo de cair, mas motivado pela satisfação que se encontra no cume. Senti os poucos pelos dela eriçados quando beijei seu umbigo, minha barba levemente raspando em seu ventre. Continuei. Beijando, mordendo, subindo. Parei alguns segundos em seus seios e subi. Nos três séculos de segundos que separaram o caminho entre seios e boca, entrei como se estivesse respondendo ao desafio do “Me pega, vai! Mas me pega com vontade!”. Aquele grito foi a permissão para que eu conhecesse de vez aquilo que eu não conhecia, até ali.


Fomos um só, de uma só vez. Gulosos em Boa Viagem. E isso foi tudo.


Gabryelle Leal e Dezwith Barros

quarta-feira, 20 de março de 2013


Havia em torno de nós e dentro de nós alguma coisa da qual não me é possível entender, coisa pesada, uma sensação de sufocamento e, sobretudo, aquela terrível solidão que alguns experimentam quando estão rodeados de amigos e mesmo assim estão sós.
Os móveis da sala, a mesa posta, os copos em que bebíamos, tudo em seu lugar exceto ele que há pouco saiu de cabeça baixa. Fatigado pela minha presença, acredito. Eu não tive coragem. Assumi mais uma vez que fracassei, que não fui cuidadosa com a gente? Que a vida por mais que eu tente me impõe escolhas. Não sei o que aconteceu.
Alguém espia pela janela, olha pra mim, lá, só nós dois, mas não me vê. Tomaram uma, duas, três... “A nós!”, ele disse. E eu ali esperando, mas não me oferecem nenhum gole. Quando eu pus as mãos, ele recolheu com violência, com raiva, eu acho, de quê? Estavam todos ali. Lambeu a última gota em seus lábios.
Tocá-lo? Já não causa o mesmo efeito. Não sei o que aconteceu. Adormeci sentada, num canto escuro, com um cheiro forte de suor. Não era meu. Não passavam das 2 horas da madrugada. Busquei, em silêncio, uma caixa vazia de lembranças, nada achei .
Na sala, algumas velas ainda acesas, meus sentidos mais vivos, mas as faculdades do pensamento um pouco adormecidas. Perdi. Perdi tudo aquilo. Perdemos tudo aquilo que chamamos de "nós". Eu fui esquecendo, sabe... Foi tudo rápido demais, intenso demais, forte demais.
E, tremendo um instante entre as cortinas do quarto, me mostrou afinal sobre a superfície da mesa. Mas a sombra era escura, vaga, informe, não era sombra de ninguém que eu conhecia, mas eu fui me lembrando, sabe... O cheiro de suor era tão grande, estava escuro, árvores altas, um corpo sobre o meu, minhas roupas em pedaços e depois nada. Eu fui esquecendo, sabe... primeiro os momentos, depois os sentimentos e, por fim, a vida.
Eu simplesmente esqueci que a morte consumiu, primeiro meus dedos, que costumavam tocá-lo a face antes de dormir, depois meus olhos, que choravam todas as vezes que ele não tinha certeza e, logo após a boca, já cheia de areia. Não tem luz, nem ninguém me chama. Eu não sei mais por onde voltar, os caminhos marcados com doces, alguém comeu. E depois, se foi.

domingo, 10 de abril de 2011

Carreteur


Esperou, ansiosamente, o elevador que não vinha.
D9...D7...D5.

Lembrou-se, então, o que uma amiga lhe dissera, dias atrás, sobre um tal de Murphy. A teoria dizia que: "Se algo pode dar errado, dará!”. Seguiu para as escadas, a sua esquerda, observando, atentamente, os degraus de mármore num esforço sobre humano para não cair, devido aos seus passos desordenados. No sétimo degrau, a porta se abrira.
O hall estava tomado por alunos exaltados e gargalhadas de uma última piada que ela não escutara. Fato corriqueiro no princípio de todas as aulas. Tirou os óculos escuros e o viu.

- Bom dia! – disse ela.
- Meu amor... Pensei que você não vinha hoje! – Puxou-a num abraço.
- Só tenho gosto de protetor solar... – sorriu corando.

Outra moça lhe reivindicou a atenção questionando-o sobre o sábado:

- E aí? Vai mesmo lá pra casa sábado? – riu a moça.
- Tá vendo... Só quer me ver no final de semana. - dirigindo-se a ela. – depende de como você irá me receber! – gargalhou.
- Eu tive uma namorada uma vez que dizia que eu só ia pra casa dela pra lhe agarrar! Aí, eu disse: “E tu quer fazer o quê!?” . – “Conversar, sei lá.” – ela disse. Então tá bom, eu continuei: “ – O que você acha da teoria de Freud sobre a mente ou a conduta humana, não, não, vamos falar sobre...” Ela disse: “Homi deixa de coisa, venha cá me agarrar!”.
Os poucos que se encontravam por ali riram. Inclusive ela.
Sentou-se num dos cantos vazios e veio a sua mente um pão com manteiga esmagado no chão. Buscou um pouco de suas leituras e pensou o que ele acharia da teoria de Freud sobre o desejo sexual? Tinha lido alguma coisa sobre isso. Ele veio com um sorriso cínico e sentou-se entre ela e a outra mulher.
- Tão bonita... Oi meu amor, saudades de você, tudo bem? – beijando-lhe o ombro.
- Estou bem. – respondeu sem graça e formalmente.
- Olha – se dirigiu a moça – minha outra namorada, aqui! – olhou para a mulher ao lado e comentou: se ela me quisesse...
- Tu tem quantos anos? – a mulher disse.
- Eu? – respondeu. - Acabei de completar 21.
- Ah professor é novinha demais. Menina nova só dá trabalho. – sorriu.
- Nova o quê? – questionou. - Essa princesa tem cabeça de cinquenta. - sorriu.
Na verdade, ela tinha uma beleza estranha e incomum.
- Eu tenho o quê... O dobro da sua idade? – encarou-a. - Eu sou dez vezes melhor do que era antes. – voltando-se para a mulher. - Lembra-se das minhas aulas quando eu tinha o quê... uns trinta? – perguntou a mulher - Outra coisa, não era?
- Eu lembro – respondeu a mulher.
Continuou:

- Sabia que o homem quanto mais velho, melhor? – apertou os olhos e falou com tanta seriedade que lhe pareceu citar um dos mandamentos. Todavia, ela pensou nos sete pecados capitais. – É como vinho, quanto mais velho melhor.
Ela virou os olhos com o clichê sem que os dois percebessem. E ele começou a perguntá-la sobre os vinhos que conhecia ou seus gostos pela bebida. Disse ela, rapidamente, que não bebia, na verdade, que era bastante sensível à bebida. Ele sorriu como se martelasse um desejo diabólico.
- A safra na verdade não importa, tanto... Mas, os italianos e os portugueses são os melhores: Castelão, Touriga Franca...
- Sangue de buá, Carreteur! – gargalhou um rapaz no bebedor. No estilo do bom francês. -

É, mais nessa idade, mulher não quer qualidade, professor, quer quantidade! – falou a mulher cortando-lhe.

Riram.

- Então tá! Eu faço o seguinte, compro uma “bixiga” de um vibrador mais um vinho... Aí eu quero ver! – gargalhou.
Ela corou mais uma vez e preferiu que o toque do início da aula soasse. Mas, como toda boa teoria de Murphy...

segunda-feira, 21 de março de 2011

Angústia



















Hoje o dia amanheceu ainda mais belo, com um dourado esplêndido brilhando sobre as folhas verdes da mangueira de meu quintal.

O mundo em silêncio. Ouço alguns sons de pássaros a cantar, carros a trafegar e a sua voz ainda a ecoar em meu pensamento: “Mas não entendo o porquê... Se tivéssemos nos conhecido antes...”

A felicidade aflorou por alguns instantes. Alegrei-me! Mas essa angústia que teima em não me abandonar. Dor da culpa de um coração movido ao pecado, constantemente tentado a te amar.

Desmoronei... Ri e chorei tentando libertar-me dessa angústia que dilacera minha alma. Coração não-cadenciado.

Porque um lado de mim é só alegria e o outro grita na vastidão da agonia.

Quero sumir para qualquer lugar onde eu me satisfaça.


domingo, 20 de março de 2011

Imensidão

O pôr-do-sol da praia estava lindo. O sol escondendo-se no horizonte e reluzindo nas águas do mar, que cintilavam como diamantes lapidados.

A orla movimentada como todos os dias. Os carros indo e vindo. Os elevadores dos grandes prédios não cessavam. As pessoas a caminhar, correr ou pedalar pelo calçadão e aquelas que pareciam fugir de um vazio interior a penetrar os mais vis desejos de suas almas, na areia da praia, sentadas frente a imensidão.

Era assim que ela se sentia. Sentada na areia, a contemplar o belo espetáculo da natureza, dava um tempo para si mesma, para entender seus sentimentos e sua variação diária de humor. Um dia sentia-se leve como pluma, em outro, o conforto abria espaço para inconformidade e uma determinação para mudança enchia seu peito. Entretanto, naquele dia, não sabia ao certo que tipo de sentimento predominava, nem quais eram as suas reais vontades, só conseguia sentir um vazio profundo. Algo estava faltando!

Levantou-se subitamente em um impulso rápido e preciso e pôs-se a caminhar. Não suportava suas incertezas e inseguranças. Permanecer sentada e imóvel não solucionaria suas crises. Resolveu então distrair-se com as pessoas que, como ela, caminhavam sem destino certo.

Em seu lado direito a imensidão engolia o sol trazendo-lhe calma. Em sua esquerda os carros tomavam suas direções gerando um movimento e ritmo que lhe ocasionava náuseas. Passou a olhar apenas em uma direção. Seu olhar distante, profundo e penetrante parecia procurar algo no infinito. Muito ao longe ela vê um rapaz vindo ao seu encontro. Seu olhar, muito semelhante ao dela, era constante, não desviava do além.

Era um rapaz muito simpático, moreno, alto e de médio porte. A cada passo que dava na direção dela, seu sorriso expandia-se. Mostrava-se encantado com a formosura daquela mulher.

Ela caminhava a passos curtos e lentos, procurando sentir o aconchego da brisa que lhe trazia calma e expelia suas ansiedades. Vestia um traje longo florido e azulado, chapeu azul turquesa com rendas brancas e os cabelos pretos brilhantes reluzindo com o reflexo do sol nas águas do mar. Sua curiosidade aumentava a cada passo que dava em direção ao rapaz. Ainda não o reconhecera.

Quando estavam a alguns poucos passos de distância, ela consegue reconhecê-lo. Era alguém que vira duas ou três vezes no máximo e trocara algumas palavras sobre os dias quentes de verão. Ele aproximou-se e com um belo sorriso ainda mais expressivo inclinou um pouco a cabeça para o lado direito e deu-lhe um beijo pouco estralado em sua face, como já fizera outrora.

Ela fechou os olhos, não conseguia entender o que estava acontecendo. Em um instante atrás estivera tão angustiada que seu coração esteve a ponto de cessar seu ritmo e agora seu coração passa a pulsar com uma certa euforia, ainda que discreta. Depois do beijo, ela permaneceu alguns segundos imóvel tentando recobrar os sentidos. Não sabia o que dizer, até que ele quebra o silêncio:

- Olá, moça bonita!

Ela sorrir e meio sem graça responde um tímido olá.

Como por um impulso, ela vira-se um pouco em direção ao mar, não queria que ele enxergasse além dos seus olhos seus sentimentos. Sentia-se feliz agora. Ele era a única pessoa que ela gostaria que estivesse ali naquele instante.

De repente ela percebe algumas nuvens tomar conta do céu e o azul vai dando lugar a escuridão. Um vento forte e frio começa a soprar causando um certo arrepio e pavor. Então ela exclama:

- Vai chover!

E ao virar o rosto na direção do jovem moço nota que ele não está lá. Nunca estivera.

A chuva começa a cair e ali ela permanece até o novo raiar do dia. Solitária frente à imensidão.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Os sonolentos

A tropa avançara mais do que devia. Homens, mulheres e crianças adormeciam no front, eu corria com uma metralhadora na mão, mas não conseguia atirar em ninguém, me perdi da minha tropa, acho que estava meio míope e a tropa que outrora avançava agora estava calada, ou era eu que estava surdo?, não sei bem, percebo que minha metralhadora volta a funcionar e miro em uma criança que dorme, a mulher ao seu lado sem um dos braços chora, pede água, vira pra o lado mais confortável e dorme e sonha com os mais belos anjos do céu rodeados de fogo frio por todos os lados, a criança que tenho a arma mirada em seu peito, também dorme, minha audição volta, ergo a cabeça e quando retorno o olhar pra ele percebo uma bala atravessar sua cabeça, procuro o assassino, não há assassino em parte alguma, apenas deuses e deusas camuflados, cantando os mais belos cânticos de Davi, minhas mãos ficam dormentes e meus dentes começam a cair e eu agora sou apenas uma máquina feita pra andar e ouvir, saio vagando rumo a colina distante e finalmente caio, ao meu lado a grama verde e rala dos campos floridos de uma primavera européia, sob minha cabeça um céu azul de um domingo qualquer, agora essa chuvinha fina, percebo que estou ficando louco, uma tempestade cai sobre mim e por mais que eu olhe não vejo a fonte, não existe mais nuvens no céu, quando estou quase adormecendo me tremendo de frio uma pistola que parece de brinquedo cai junto com a chuva em meu peito, aquele é agora o brinquedo que nunca tive, me sinto com 4 ou 5 anos de idade, e quantos anos eu tenho mesmo?, já não sei! Engatilho a arma de brinquedo atiro no meu pé esquerdo... não era de brinquedo... choro incontidamente em uma súplica desesperada por um colo de mão, e finalmente quando me canso, passo a ser o velejador do barco em que todos já me esperam e finalmente durmo...

(Dezwith Barros)

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Eu tentei...


Eu tentei escrever, incessante, alguns versos. Faltou-me... Não sei. Inspiração. Há pouco tu saiste de cabeça baixa. Eu não tive coragem. Assumir, mais uma vez, que fracassei. Que a vida por mais que eu tente, me impõe escolhas, escolhas, escolhas... Não sei o que aconteceu. Alguém expia pela janela, enquanto tentamos encontrar um caminho sentados, solitários, na mesa. - Você viu? Cansasse, seu corpo fatigado pela minha presença. Tomamos uma, duas, três...E eu ali. Esperando. Um pouco, tentando, desesperadamente, nos encontrar. Seus toques já não causam o mesmo efeito. Não sei o que aconteceu. Acordei sentada num quarto escuro, com um cheiro forte de suor. Não era meu. Não passavam das três horas da madrugada. Busquei, em silêncio, uma caixa vazia de lembranças, cheia de arrependimentos. E se eu tivesse dito não!? Foi tudo rápido demais, intenso demais, forte demais. Mais uma forma de reprimir todos aqueles desejos incoerentes. Reli todas as cartas, confidências, declarações... Nenhuma sua. Pelo menos nenhuma que eu pudesse lembrar. Perdi. Perdi tudo aquilo. Perdemos tudo aquilo que chamamos de "nós". Eu não sei mais por onde voltar, os caminhos marcados com doces... alguém comeu.



domingo, 12 de setembro de 2010

Always


Naquela tarde faria a mais alta maré dos últimos 5 anos.

Fiz de tudo para apressar-me, afinal havia perdido tantos dias sem a sua presença... Como eu poderia supor que encontro assim seria possível, um dia? Pensei em esperar-lhe na praia como se nada houvéssemos planejado... Recitei um ou dois poemas e decidi não elogiá-la “- Como estais bela!” Soaria ridículo, típico de um arrependido. Como se eu nunca tivesse percebido suas feições.
Aproximava-se e um sorriso surgiu, abaixara seus olhos como se já não houvesse incendiado os meus. Não sei explicar-lhe por qual sentimento fui inundado, mas inundado é sim a verdadeira palavra.
Abracei-a e beijei-a onde era permitido.

“- Como estais bela!” – Sorriu. Ainda mais graciosa que antes, guardando as lembranças para mim mesmo.
- Demorei?
- Não, não. Cheguei um pouco mais cedo. O bastante para ver as ondas. Tu sabes, não é, que hoje está fazendo a mais alta maré dos últimos 5 anos?
- Exatos anos que não te vejo...
Contou-me um pouco sobre a vida. Com o que ocupava suas horas. Falou-me do trabalho, da universidade, das artes marciais e do hipismo ...
- Sonhei contigo outra noite, antes de te convidar para este encontro.
- Encontro? – sorriu.
- Bem... – balancei a cabeça.
- Como foi o sonho?
- Acho melhor não te contar...
- Nossa... Foi tão ruim assim?
- Pelo contrário! – Insistiu ao ponto que não pude mais calar.
- Estávamos em minha casa... E você me esperava em...em meu quarto.
- Continue.
- É... a noite foi maravilhosa. – Imaginei se esta noite tivesse acontecido. Nossa primeira vez. Aquela que nunca se concretizara.
- Nossa. – Permaneceu em silêncio com um sorriso contido, fitando as ondas.

Caminhamos um pouco. Falamos sobre casamento, viagens e sonhos. Ela parecia tão crescida, contida, sensata. Impressionei-me e temi todos aqueles anos passados.

- Pensas em casar? – questionei-a.
- Às vezes.
- Fico pensando. Você sabe que se casar ele será o último homem de sua vida, não é?
- Não. Não havia pensado nisto.
Comprei-lhe uma água de coco e ela prometeu pagar-me um sorvete em outra oportunidade. Reclamou que estava velho, mas não quis trocar comigo, fingindo saborear o caldo aguado. Sentamos em meio às árvores.
- Posso te fazer uma pergunta?
- Claro.
- Porque não me procuraste depois de tudo? Bem, eu... Mesmo por tudo que te fiz esperava uma reação mais intensa. Um tapa na cara, talvez.
- Eu? Eu não iria atrás de ti. Você havia errado. Para mim a sua confissão dizia-me que não me amavas mais. Por que eu iria insistir em algo que não era mais meu? Não faz sentido. Eu queria te ver feliz. Por isto fui embora.
- Sabe eu... Eu temi este encontro. Tive receios de não me conter.
- De não se conter? – interrogou-me.
- De te beijar. – Abaixou a cabeça, mas não consegui encontrar sorriso algum. – Eu era tão novo, sabe. E o nosso relacionamento havia ficado tão sério. Eu tinha medo de perder os momentos. Até que percebi que eu não perdi nada a não ser você.
- Passaram-se 5 anos... – ela me olhou e levou-me junto em suas lembranças.
- Eu esperei uma palavra, uma desculpa. E você me esperava também. E assim passaram-se 5 anos.

A música que havia lhe dedicado finalmente fazia sentido:

“It's been raining since you left me
Now I'm drowning in the flood
You see I've always been a fighter
But without you I give up…”

Levantou-se e se afastou bruscamente. Continuei sentado olhando-a. Voltou-se para mim e meu coração disparou quando senti o cheiro de seu abdômen roçar o meu rosto. Seria aquele o momento onde tudo seria revisto. Não importava nada mais, não importava as horas, eu a teria outra vez...

Beijou-me e sussurrou-me triste.

...


Naquela noite cinco estrelas alinharam-se ao leste...

Meu corpo todo tremia. Sentado, perto da praia, ele me esperava. Fingi no primeiro momento não reconhecê-lo. Talvez isto doesse um pouco. Como se o tempo tivesse apagado mais que sentimentos... Infelizmente, deixei escapar um sorriso assim que me aproximei. Seus olhos não eram algo que eu pudesse ignorar.
Abraçou-me e beijou-me no mínimo formal.

“- Como estais bela!”- elogiou-me em seguida.
- Demorei?
- Não, não. Cheguei um pouco mais cedo. O bastante para ver as ondas. Tu sabes, não é, que hoje está fazendo a mais alta maré dos últimos 5 anos? – questionou-me como se quisesse disfarçar uma suposta inquietação.
- Exatos anos que não te vejo...

Conversamos um pouco sobre o cotidiano. Com o que ocupavas suas horas. Falou-me dos projetos, da família, do sonho de aviação e do veleiro.

- Já comprou os salva-vidas? Sabes que temo um pouco o oceano. – brinquei.
- Não deixaria que nada lhe acontecesse...
- Sonhei contigo outra noite, antes de te convidar para este encontro. – cortou-me o olhar de suas últimas palavras. Sabia que não havia cumprido suas promessas.
- Encontro? – indaguei para deixá-lo sem graça. Suas bochechas geralmente ficavam vermelhas.
- Como foi o sonho?
- Acho melhor não te contar...
- Nossa... Foi tão ruim assim? – quis desafiá-lo para que me revelasse o fato.
- Pelo contrário!
- Estávamos em minha casa... E você me esperava em...em meu quarto.
- Continue. – instiguei-o interessada.
- É... a noite foi maravilhosa.

Lembrei daquele dia, na cozinha, nossos corpos tocando desajeitadamente, pela primeira vez. Poucos momentos tivemos. Uma única oportunidade que fora perdida. Dei-me conta de meus pensamentos e temi qualquer postura de melancolia, mas pegou-me fitando as ondas, absorta.
Caminhamos um pouco. Ele pareceu-me diferente. Diferente daquele menino que havia conhecido tantos anos atrás. Era outro, mais simples, mais vivido, mais intenso e menos sensato. Era um homem.

- Você sabe que se casar ele será o último homem de sua vida, não é? – interrogou-me enquanto conversávamos.
- Não. Não havia pensado nisto. – Mas, pensei. Bem mais em seu contexto que na decodificação de suas palavras. Por que ele perguntava-me aquilo? Queria lembrar-me que o casamento nos separaria para sempre? Como se já não houvesse passado 5 anos...
Sentamos em meio às árvores. Anoitecia.
- Posso te fazer uma pergunta? – questionou-me.
- Claro. – respondi segura. Mas era tudo fingimento.
- Porque não me procuraste depois de tudo? Bem, eu... Mesmo por tudo que te fiz esperava uma reação mais intensa. Um tapa na cara, talvez.

Fiquei um pouco surpresa com suas palavras. Afinal, isto não era nenhum segredo. Ele havia errado. Eu apenas o deixei ir. - Respondi.

- Sabe eu... Eu temi este encontro. Tive receios de não me conter.
- De não se conter? – interroguei-o
- De te beijar. – Abaixei a cabeça, pois eu sentira o mesmo. Mas, na verdade, o medo estava mais pelas conseqüências dos sentimentos.
- Eu era tão novo, sabe... Até que percebi que eu não perdi nada a não ser você.

Escutei cada palavra. Era tudo o que eu desejava ter escutado.

- Você foi o meu primeiro amor. – comentei.
- Eu queria ser o último.
- Passaram-se 5 anos... – lembrei de todos os nosso momentos, até ali.
Ambos esperamos. Mas, nenhum dos dois fora corajoso o suficiente para tentar de novo. O tempo caiu por entre os dedos...

Naquela manhã, anos atrás, ao fim das aulas. Escutamos a nossa música e ela fazia mais sentido agora...

“Now your pictures that you left behind
Are just memories of a different life
Some that made us laugh
Some that made us cry
One that made you have to say good bye”

Levantei- me o mais rápido possível evitando qualquer aproximação. Ele continuara sentado, mas não fitei suas feições. Pensei se jogaria tudo ao alto e o beijaria como naquela manhã, se valeria amá-lo outra vez. Reviver aqueles dias interrompidos...
Eu sabia que ainda o amava, sabia que jamais poderia esquecê-lo e que mesmo na dor ele me provara que o amor era para sempre.

Abracei-o ainda sentado e sabia que ele ainda continuava a espera de algo meu. Beijei os seus cabelos em meu último adeus.

- Passou tanto tempo... - as minhas lágrimas o umedeceram - Mas, eu sei que enquanto eu viver, você estará em meus pensamentos.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Maioridade

O cheiro do café inundava o ambiente.

“Segurar; Fixar; Assentar; Fundar... Firmar!?

Firmar!? – Isso. – sussurrei aliviada

Aprontei-me, rapidamente, eram quase duas da tarde e a hora se aproximava.

A blusa era de uma brancura quase transparente, receio de demonstrar qualquer impureza na alma... Pois tudo o que é mais justo ele havia me ensinado no decorrer daqueles 20 anos. Os cabelos pendiam no alto, estilo professora de 2º grau; usava uma saia comportada, mas curta o suficiente para as lembranças das primeiras dores, das primeiras cicatrizes...

Lembrara-se ao ouvir os seus passos na escada, do dia em que colocou-me com todo cuidado em seus braços e levou-me ao hospital...

- Luxação de patela – dissera o médico.

- Você vai melhorar – Não sabia que lutava tão bem! Mais um minuto em pé e você acertava ela!

Ainda na maca escutei quando o chamaram:

- Ela não poderá lutar mais. Rompeu os ligamentos e torceu o joelho esquerdo. Vai precisar de cirurgia!

- Ela vai lutar, sim ! – sussurrou em seguida.

Vi o orgulho em seus olhos. Quisera, então, parecer o máximo segura, adulta e inteligente possível, naquele momento.

- Pai?! Queria lhe falar algo...

- Vai sair? – respondeu com indiferença.

- Não, não...

- É que... Eu estava conversando com Victor e ele falou que gostaria... Hum... queria FIRMAR um compromisso comigo...

Seus olhos fitaram-me quase sem demora. Era o mesmo olhar que vi, naquele clássico há tantos anos atrás.

Um time, de pouca importância, ganhava de 2x0 para o Esporte Clube e sua expressão desafiava qualquer pobre torcedor que ousasse contrariar seu sangue rubi. Após este jogo o Verdão enfrentaria o Cruzeiro e a minha animação era maio que o seu desânimo. Contando os minutos para o fim do jogo. Após 15, sem sucesso, pegou-me pela mão e afastou-me da multidão enlouquecida.

- Pai...? O Palmeiras agora! – meus olhos reluziam a luz dos holofotes. Sorte minha não serem castanhos. Ele esperou um pouco, contorceu os lábios e disse:

- Eles estão fazendo uma boa temporada, mas a revanche no Espinheiro vai ser boa! – gargalhou enquanto alguns jovens se afastavam. O juiz apitava o início do primeiro tempo.

Sabia que momentos assim não voltariam. Eu havia crescido. E pagaria pelos meus ingressos desta vez.