sábado, 20 de fevereiro de 2010

Setembro




Maldito, visão que odeio

Do egoísmo mais que bélico
Em tu repousa o meu anseio
Meu piedoso veneno benéfico

Dia raro aquele minuto que vi
Tão perto quanto a um passo
Do acaso à setembro, fim
De igual valor é o descompasso

Sublime descrição da ternura
Impenetrável redenção do amor
Se fácil fosse como eu gostaria
Não trarias felicidade, ó dor

Se eu ganhar-te com um beijo
Conscientemente eu saberia
Por não dominar meu desejo
Ao ganhar-te eu me perdia.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Metade... (Ele)

Teu sorriso é brisa leve
Que alivia esta vida,
Tua pele quente contagia...
Tão macia tão bonita.

Quando penso em você
Pára o tempo e a existência,
Perco o rumo por viver
Com você na consciência

Toda via é preciso
Que tu saibas minha dor.
Ser humano e não de ferro,
Sofro o silêncio do amor.

Em silêncio absoluto
Guardarei com muito medo,
Pois te amo e não consigo
Revelar este segredo.

(Sérgio Filho ao Chá das Qu4tro)

domingo, 24 de janeiro de 2010

Nosso Chá das Qu4tro



Queridas,


Há muito não as vejo e já não sei o que se passa. Os dias no campo são tranquilos e as férias de verão deixaram-me absorta em meus romances que já se tornaram desculpa para aquietar este coração ansioso. Mas, a cada página lida meus desejos clamam pelas presenças de minhas doces companheiras.

Minhas tardes são preenchidas com Valete em longos passeios e terminam com a leitura de um livro sentada, no balanço, da velha casa abandonada da família Quilson. Algumas noites jantares são oferecidos à novidade desta pequena cidade. Imaginem todas as minhas forças, para agradar meu avô, na presença de tantos olhares ambiciosos?

Não sei se o melhor seria voltar...Por mais que tanto deseje vê-las. Entretanto, a corte não parece-me o lugar ideal, agora. Preciso estar um pouco mais aqui, longe de tudo, longe de todo o ano que passou. Vocês precisam ver o amanhecer entre estas montanhas é tão belo e inunda-me de vida a cada instante.

Troquei os chapéus pelos cabelos soltos e um pouco mais curtos que foram censurados, em princípio, pelo meu avô que depois se desmanchou em um largo sorriso e falou-me:

"- Menina tola... Perdeu teus cachos!"

Sentirei falta de sua gargalhada virtuosa, mas muitos dias ainda chegarão. Tanto para realizar, tanto a contar-lhes de sonhos, o quanto diferente me encontro e o que aprendi no silêncio. Em alguns meses nos veremos e retomaremos o nosso Chá das Qa4tro... Escureceu um pouco e nem passa das cinco... Acho que se aproxima uma chuva de verão.

Preciso levar Valete ao estábulo...

Abraço-lhes com toda a minha força,

Aurélia.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Últimas palavras

Perdoe-me querida Lúcia por estas palavras encharcadas...

Estava eu deitada em minha alcova, a casa ainda dormia, quando bateram, rapidamente, a porta. Assustei-me pela hora. Bateram mais uma vez e neste momento me pareceram mais fortes, levantei-me num sobressalto imaginando que não desistiriam e temi por algo ruim...
Afastei vagarosamente a cortina, deixando apenas meus olhos, ainda baixos pelo sono, fitar os do meu insistente mensageiro.

- Perdoe-me senhorita pela hora! - exclamou o rapaz sem fitar-me, enquanto desembrulhava um envelope negro preso por uma fita minuciosamente armada em vermelho.
- Algo aconteceu? - interferi.
- Preciso lhe entregar isto e tamanha foi a urgência designada que não poderia deixar o amanhecer surgir...

Toquei o envelope e o tremor percorreu minha alma como outrora havia sentido. Lembra-se daquela tarde em que aquela dor, aquele sentimento que dilacerou meu peito? Senti o mesmo calafrio...

- De quem...?! - interroguei-o - não sei ao certo quanto tempo observei aquele negro envelope, nem se o que me chamara a atenção fora a escuridão ou aquela fita de sangue... Mas, fora o bastante para que o meu apressado mensageiro desaparecesse na escuridão...

Fechei a porta e enquanto procurava algum feixe ténue de luz dilacerei, delicadamente, o envelope. Parei imóvel próximo ao candelabro de bronze. Era uma carta... Ao ler as primeiras linhas atropeladas de tristeza e acusações ainda não me dei conta de meu misterioso remetente, entretanto, um apelido atribuído a mim revelava-me a autoria.

Ó Lúcia, amada Lúcia, aquelas palavras contidas ali não existiam em nenhuma língua falada sobre a terra, como ele pensara em tais vocábulos que para mim machucaram como um insulto? Tantos objetivos obscuros ele me atribuía...Procurei algo sólido em que pudesse apoiar não só o meu corpo febril, mas tudo que desabava...Em vão. Cai desfalecida. De um lado, a carta amassada e do outro uns versos de Whitman.

Ó vivendo sempre, sempre morrendo!
Os meus sepultamentos do passado e do presente,
Ó quando ando vigorosamente para adiante, material, visível,
[ imperioso como sempre;
Ó esse que fui por anos, agora morto (não me lamento, estou satisfeito),
Ó para desligar-me destes corpos meus, para os quais me volto,
[para olhar o lugar em que os joguei,
Passo adiante (Ó vivendo! Sempre vivendo) e deixo os corpos
[para trás.

Lembra-se como o conheci? Acho que nunca comentei. Na verdade pouco houveram de apresentações...Tínhamos outros afazeres e esperávamos pela mesma pessoa no momento. Era um bom homem e isto foi percebido imediatamente. Com o passar dos dias e nos caminhos que cruzávamos trocamos conversas simples, pelas circunstâncias.
Durante o nosso chá das quatro, naquele dia tempestuoso, o seu irmão, conhecido de ti querida Lúcia, chamou-me a estar em um local mais reservado. Não sei quais eram suas reais intenções em revelar-me sentimentos do nobre poeta que me fazia companhia em agradáveis caminhadas.

- Sabes, senhorita Aurélia, que estais por muitos desejada? - interrogou-me como se procurasse um interesse profundo de minha parte.
- Ah... Não sabia Hermano. E por quem? - respondi sorrindo, sem levar-lhe a sério, pois seu modo brincalhão tentava divertir as jovens senhoras sentadas, entre livros e um quente bule de chá.

Revelou-me sem pormenores. O primeiro não era de admirar, pois sua ousadia já era falada na corte ou nas casas de simples famílias. Entretanto, o segundo surpreendeu-me, e para não demonstrar minha inquietação continuei a sorrir...Com o decorrer dos dias seu interesse se tornou presente e após uma conversa franca revelei os meus sentimentos que por ventura não lhe agradariam. Ele declarou-se, e eu os neguei para não iludí-lo com promessas das quais eu não poderia cumprir.

- ... Então, me amas? - perguntei com os olhos úmidos escondidos na escuridão pela vergonha do que lhe causava.
- Não te preocupes! Eu nada espero de ti... - respondeu com uma voz rouca e falha.

Desaparecera por um tempo. Soube que havia viajado, repirar outros ares.

Passei por certos problemas de saúde e a sua presença, em retorno, confortou-me como se evaporasse minha culpa perante o seu sorriso e flores de melhora. Tão agraciada era a sua presença em minha família, como um filho e para mim um irmão.
Melhorei indiscutivelmente e voltamos as nossas caminhadas como antes, para mim o passado, os sentimentos estavam sendo esquecidos, levados por aquele vento fresco da primavera.

Fui sim, bela Lúcia, fui ingênua e mesquinha em permanecer junto, em tentar cultivar uma amizade que era impossível de manter-se erguida, por sentir-se bem em conversar tudo com ele, por amar a sua presença. Não percebi que para ele minhas palavras, meus sorrisos, meus gestos amistosos que eu compartilhava com todos que tinha apreço foram interpretados como sinais, nas entrelinhas como num verso de Bocage que cultua a natureza querendo permanecer no fogo...

Cavalgáva-mos como duas crianças pouco antes do anoitecer, conversávamos coisas supérfluas.
Meu confidente que transcrevia nossas tardes em sonetos.
Antes da chuva nos alcançar, ajudou-me a descer do cavalo branco, como um estrondo, apertou-me contra seu peito para amenizar o impacto de meus pequenos pés ao chão. Surpreendentemente nos aproximamos um pouco mais, o que jamais acontecera. Não sei ao certo se fora planejado, mas acredito que não pela índole de seu caráter. Aproximou-se como se quisesse beijar-me. Quase por instinto abaixei meu rosto, tão assustada e surpresa que uma só palavra não pronunciei. Corri para casa.

E me enchi de raiva e vontade de machucá-lo.Não sabes o quanto fiquei brava, por sua ousadia, mas o sentimento transformou-se em culpa. Culpa pela situação que eu causara. Eu sim, Lúcia. Eu devia ser machucada. Percebi o quanto era grave a minha amizade e o que ela causaria para ele, para mim e para meu noivo.

Chorei querida e me envergonho, pois eu, a mulher que desejei me tornar não choraria, não mais. Foi inevitável, pois posso ter sido boba e ingênua, Lúcia, mas dissimulada? Nunca. Repeli a sua presença dias após o acontecido, (não por ter tramado uma conquista e depois jogá-lo do seu pedestal,) se isso fora pensado. Mas, o repeli porque não mais sabia como agir, pois precisava afastar-me para o seu bem e o meu.

Eu não o amava como ele desejava, Lúcia, não como amo ao meu senhor, mas talvez ele encontrasse amor em minhas palavras ou em gestos... Eu não sei dizer. Percebi na sua tentativa de unir nossos corpos que o meu coração não era divisível. Caso fosse, eu teria me entregado. Porque isto não foi percebido por ele? Se me procuravas nas estrelinhas e para todos me tornei a dualidade em pessoa? Mas, isto já não me importa, que pensem.

Bem que me avisaste, em toda a sua plenitude, me avisaste doce Lúcia que a amizade não seria possível.

E eu?

Acreditava que sim.

Ainda desfalecida, em sonho, eu as vi. Eram três, sorriam e brindavam como mosqueteiras, parecia ter passado muitas décadas, pois eu não possuía a mesma face de outrora nem os olhos que brilhavam. Abaixo das espadas uma lápide.

- Aqui jaz um poeta!


Eu não sorria, Lúcia. Como eu poderia sorrir? Um belo rapaz sentado abaixo de uma Figueira me observava. Seguia-me com os olhos enquanto eu caminhava em encontro ao veículo. Até que pousou a vista em minha filha, sentada a fitá-lo no banco detrás. Era o seu filho, Lúcia. E como era parecido com o doce poeta que há tempos eu conhecera.

Despertei lentamente e a cor voltava a minha face. Amanhecera. O fim do ano se aproximava e tomaríamos rumos distintos à procura de uma sobra que amenize o calor do verão. Uma leve chuva caía...

Naquela manhã eu completara 21 anos e uma nova força me dava ânimo para levantar, afinal o casamento seria no inverno.

Abraços querida,

Aurélia.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui...além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar!Amar!E não amar ninguém!

Recordar?Esquecer?Indiferente!...
Prender ou desprender?É mal?É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó,cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

(Florbela Espanca)

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Ouvir Estrelas



"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."

(Olavo Bilac)

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Antes de dormir

O silêncio por longos dias pairaram...
Nunca fiquei tão emudecida, inquieta e tive medo de que fosse percebido. Os seus olhos em verdade nada me diziam, ficaram silenciosos, mas gritavam palavras atropeladas que não pude compreender ao certo. Ou não quis compreender para que a minha dor não se tornasse mais presente. Afinal, poderiam arrancar metade de mim, mas eu não seria capaz de tocar um dedo se quer em seu corpo pálido, tinha receios de quebrar-lhe.

Fugi. Vergonha de fitar-me novamente. Pois, o que mais odiava era a idéia de não poder me distanciar, que o coração vacilasse e o peso das circunstâncias não fossem mais medidos. Depois de ler alguns capítulos de Balzac, levantei-me e parei, mecanicamente, alguns segundos na frente do espelho. Imaginei se Eugenia teria também aqueles traços exaustos. Espalhei os cabelos deixando-os caírem sobre os olhos, fiz uma careta, sorri, e nunca quis tanto sentir-me feia. Feia apenas o bastante para não ser percebida, como sempre desejei.

Talvez o dinheiro desta tenha sido realmente cobiçado por tantos admiradores. Mas, e eu? O que eu tinha? O que tenho que por mais que eu tente esconder, teima em ser, minuciosamente, declarado? Ainda estava parada ali, com os cabelos emaranhados e recordei-me do seu sorriso torto que eram frequentes, agora. Senti que a sua presença fazia-me bem, na verdade sempre soube. Como jamais havia sentido, como jamais quis sentir. Por que as mexas sempre teimavam em cobrir os meus olhos como se quisessem escondê-los?

Senti um leve calor em minha nuca, um elogio aos traços delicados refletidos no espelho e um convite. Por alguns minutos esqueci-me dos meus próprios pensamentos até o sono e o cansaço me tocar. Talvez em alguns momentos ao cruzar a sua porta, com a alegria de um pequeno sorriso em seus braços, ele não se esquecera dos seus também. Seriam os únicos momentos em que estaríamos felizes de verdade? Senti medo, por mim. Mas, estava feliz por ele. E talvez me suicidasse para que ele permanecesse assim.