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segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui...além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar!Amar!E não amar ninguém!

Recordar?Esquecer?Indiferente!...
Prender ou desprender?É mal?É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó,cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

(Florbela Espanca)

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Ouvir Estrelas



"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."

(Olavo Bilac)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Alorna


Retratar a tristeza em vão procura
Quem na vida um só pesar não sente,
Porque sempre vestígios de contente
Hão de apar'cer por baixo da pintura;


Porém eu, infeliz, que a desventura
O mínimo prazer me não consente,
Em dizendo o que sinto, a mim somente
Parece que compete esta figura.


Sinto o bárbaro efeito das mudanças,
Dos pesares o mais cruel pesar,
Sinto que perdi tristes lembranças;


Condenam-me a chorar e a não chorar,
Sinto a perda total das esperanças,
E sinto-me morrer sem acabar.

(Marquesa de Alorna)

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Incompleto Soneto


Apressam-se minhas palavras em te lembrar
Do breve encanto que teu olhar me encerra
O fervor dos teus beijos a me queimar
Restringindo a tortura desta espera

Senhora de tuas noites, apenas quero
Adormecer perdida no teu abraço
Aspirar todo encanto que com esmero
Oferes no aconchego do teu afago

Leva o frio inverno que em mim mora
Quando da tua ausência, solitária me vejo
Traz teu olhar que o meu sentido aflora

Entontece-me com a doçura de seu gracejo
Toma meus desejos em lençóis de cetim
Sou um incompleto soneto, rabisque em mim